Um poço de lama. Alguns grãos de desejos. Um oásis de esperança. Um deserto de desespero.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Reflexo


O que nos acontecerá quando a noite raiar
brotando dos medos sangrados da dor da perda,
moídos pela iminência da descoberta,
do amor desperdiçado pela aventura insegura?
O pensamento trocado pelos trocadilhos perigosos
da confusão de um nome
do toque inseguro de uma pergunta inesperada
para uma resposta embebida de calúnia, de estória
O olhar, frio
O sexo, sombrio
Tudo pela mentira
Tudo de mentira
As sensações, os desejos, as indagações
Tudo de mentira
Tudo na mentira
As roupas no chão
O suor condensado
Os sussurros altos
Fazem tudo parte de um teatro

Por medo de mudar
Me mantenho inseguro
Entre andar e ficar parado
escolhi cavar um abismo
no pedaço que me mantém equilibrado
entre a morte meditada,
do envenenamento simbólico,
da dor que não afaga

domingo, 28 de setembro de 2008

Conhecimento


Empreste-me pedaços de seu discurso para que eu possa usá-los como meus
Suas palavras parecem tão sólidas que gostaria de derretê-las
Doe-me dúzias de seu “eu acabado” para que eu possa me construir,
Procure um pouco de tempo para me ensinar a me redimir,
Guie-me por dentre caminhos tortuosos, de elevada dificuldade,
pois nenhum enigma seria capaz de detê-lo, você conhecedor da vida,
dos conflitos, da conquista
Seu “eu” uni-facetado, conhecedor do retrocesso temporal
Como é complexo fazer do múltiplo uno
esquecendo da unidade maternal
Vamos voltar ao desconhecido
e esquecer o que temos que aprender
Não quero esse mundo de conhecimento
Quero apenas viver

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Palhaço




Quero chorar as lágrimas postiças desenhadas em meu rosto
Borrando a pintura caricata que às vezes não lhe diz quem sou
Para te mostrar meu verdadeiro valor,
corto a carne doentia,
chupo teu sangue frio
costuro o buraco aberto
Teu pulmão desgastado,
Teu coração angustiado,
Tua cabeça enferma
Teus lábios ressecos
Vou tudo esquecer
Para te lembrar que sou um palhaço
Pronto para vencer

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Campo de Batalha


E você luta,
luta, mas nunca chega lá
Caminha léguas e pára aqui
Indeciso sonhador
Careta, menino
Jogou tudo ao mar
Inocente, não sabe o que é paixão
E lutamos,
Por tudo que um dia vivemos
Mas a batalha é dura
Os corações, fracos
O tempo passou e ainda somos crianças
Apunhalado por quem você mais confia
Sente apenas o sangue escorrer
Quente e calmo pela confiança branda
Guerreando com todos
Por tudo que eles falam
Contra tudo que eles são
Querendo flutuar, esquecer
Agredita que nada aconteceu,
que tudo aconteceu
E abraços não mais são necessários
Para um guerreiro que parte,
Para um guerreiro que morre,
Para um guerreiro que ama
neste campo de batalha,
nesta vida, aqui, imposta

O que a poesia (não) faz


A poesia esquece que não quero demonstrar tudo que sinto
Clareia o que desejo manter obscuro
Vicia-me a libertar-me dos vícios
Não diz o quanto eu necessito disso
Evidencia o quão frágil estou
Não esconde minhas falhas
É sentimental por demais
É retrato momentâneo,
ingrato
Revela segredos indizíveis olho a olho
Não nos deixa descer antes
Impede que voltemos um passo
Nos massacra com verdades desejadas
Deixa os pés frios, sem lençóis
Me deixa pensativo,
sozinho...

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

...


aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Escultura


Queria poder olhar tua nudez
e reparar todos os detalhes dos poros da tua pele...
para saber se a perfeição se reproduz em laboratório

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Untitled


Não me pergunte por qual caminho vou
Seguindo com os olhos vedados
Ouvindo o som
suave
doce
vermelho
amargo
Salto o escuro
Pinto o colorido
E se eu não quiser partir?
Você virá/ficará comigo?

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Numa Noite


O silêncio me machuca em cada chegada,
em cada despedida
Onde fora você?

A saudade latente
alongada pelas horas arrastadas
não fora suprida
Lágrimas desperdiçadas!?
E sua casa?
E nossa partida?

Como se nada tivesse acontecido
Você cruza
Mais uma vez eu fiquei
Sem uma noite, só
Escondido na minha máscara,
que todo o medo mascara
Você sorrir,
minha dor

Você figurara
Como mera conhecida
Apenas uma menina que encontrei algum dia na esquina

E meu coração te arrebatou
Como o sonho inacabado
No meu quarto tudo ficou,
como em cada temor,
como em cada amor,
como em cada partida

Insuficiência


Quando somos os personagens das tramas de outras pessoas
E temos como função desenlear a rede confusa
Sobre os sentimentos ardentes
Do pulsar contínuo
De poemas obscuros
Da imaginação fria
Escrevendo para honrar a dor
Fugindo a todo momento para encontrar o exílio
Num barco que vai afundando
milímetro por milímetro junto com nosso prato
Sem ninguém ao lado
Sobre os pensamentos perdidos
Relembramos tudo que sentimos
Apenas para dizer: “eu te amo”

Mas isso não é suficiente
Para me tirar deste meu lugar
Mesquinho, indefeso, confuso
Nesta encruzilhada,
Nada há para onde olhar
O passado já passou
O presente está perdido
O futuro não é contínuo, não é amigo
E eu, aqui, o escolhido
Qual caminho percorrer, quando não se sabe o porquê viver?
E se você está aí
Porque não grita por mim
apenas para ecoar
sobre a parede, pela janela, no imaginar
sua sede de paixão, ardente em nenhum coração?

domingo, 14 de setembro de 2008

Para Esvair


Quero escrever para explodir
Concentrar a música nos ouvidos
Dissipar as críticas
Esquecer quem sou
Para não ler os poemas de outrem
Fingir não ver meus erros
Fingir que estou num caminho seguro
Enganar-me com os ferimentos abertos
Contentar-me com as partidas agendadas
que na fadiga crescente,
da crucificação diária de cada olhar,
do martelar das palavras,
do achar de uns,
do querer de outros,
me desespero nadando pelo deserto do fundo do mar
Escrevo para esquecer de procurar as respostas para minhas dúvidas
Para adiar o dia do encontro final
Para mudar a essência
Caminhar vagarosamente
Eliminar os flagelos
Traçar retas, sem paralelos
Fugir a todo tormento,
a todo momento

Homem Barroco




No paradoxo barroco
Divido entre o real e o imaginário
Entre o certo e o errado
No limite do sagrado com o profano
na penumbra da luz branca
Sempre buscando o caminho mais tortuoso
Da teatralidade nascente
Nessa eterna fuga
Recuso-me a combater o medo
Fazendo de tudo bolas de neve
Soprando o vento das mágoas
Vivendo numa realidade morta, viva
Tudo me apavora
E eu penso: “não me deixe agora”
E porque ir por esse caminho?
E porque logo esse caminho?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sorrisos


Os sorrisos são sentimentos tátil-visuais
Expressos de diversas formas
Nos momentos de dor,
nos de felicidade,
nos de surpresa,
nos de aflição

Facilmente desmascarados
Existem os tranqüilos,
os acanhados, os redentores, os estimulantes,
Existem também os que coram, desandam
Os que balançam o coração,
que retiram a terra de órbita, pura diversão
E até nos momentos de tristeza lá está o sorriso,
teimoso em se mostrar

Entre sorrisos minguados, acanhados
entre os disfarçados e perigosos
Todos tiram um pedaço de sua mascara,
quando mostram o que de dentro exala

Entre todos esses sorrisos,
o meu é o da metade
Quase que forçado, artificial
Incompleto, simbólico
Sempre a esperar algo terminar
Mas ainda assim, alguns dizem ser bonito,
ainda que desperte a sensação de postiço
Esse é meu sorriso
Que quase não quer se mostrar

E nessa imensidão de pluralidade
Cada qual escolhe seu tabuleiro
Para manifestar esse grito calado
da dor, do rancor, da felicidade, do amor
que do peito se revela
e que na alma nos acalenta

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Por traz da mascara de Pierrô


Estou cansando de todas as baboseiras que me circunda
De promessas feitas e quebradas
De personalidades formadas
Das acusações infundadas
Das palavras trocadas
Dos votos de paz
Cansei de perder para o mundo
De tentar ser um cientista social
De explicar o desinteressante
De gostar do ridículo
De cultivar o que a moda ultrapassou
Cansei de tentar mostrar que devemos ser melhores
de embutir a “reavaliação pessoal”
Desisto de tentar
Não quero mais implorar

Lembranças


A lembrança de uns poucos momentos,
a lembrança de "pouca" importância,
a lembrança do desespero,
a lembrança de quem ama
Essas são todas lembranças
De um amante,
De um pilantra

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Memórias Abastardas


Esqueça o passado como artefato negro
Você disse que iria partir
E, agora, o que será de mim?
E nosso passado, recente
Claro como a alvorada
Fresco como a brisa
Teus abraços
calorosos
ofegantes
libidinosos
E teus sorrisos
E as estrelas que olhamos juntos?
E a canção do mar orquestrada por nossos ouvidos?
Caberia tudo isso no porta-malas da partida?
Os tantos beijos
Os desencontros encontrados
A dificuldade do amor
da complacência
do temor
Tantas coisas já temos para contar
Os flashes rememorados
As primeiras experiências de nossas vidas
Tudo acontecendo quando estávamos juntos
Não são suficientes para te fazer lembrar o que somos?
Ou o que nos tornamos?
Nossas corridas na praia
Deitando na areia molhada
Sussurrando sonhos distantes
Imaginando-nos como pobres amantes
Tudo isso não justifica o porquê da paixão?

Decido, por hora, me calar
Conter todos os gritos abafados, silenciados pelo penar
O que posso te dizer
É que eu te quero para mim





Ainda que seja para me iludir

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

No meu Quarto


Detrás da porta
um par de chinelos descansa ao lado de alguns CDs e toca-fitas
A fraca luz do abajur proporciona a penumbra ideal
Para uma noite de melancolia, para uma noite de reflexão

Sobre as estantes, os livros
Nas prateleiras, algumas fotos
Por cima do móvel marrom, a vida virtual
Agrilhoados na parede branca,
manchada com alguns poemas de pouca importância,
um quadro, dois cartazes, três chapéus, um porta retrato
estes repousam tranqüilos
baratos, esquecido, guardados

A janela coberta por uma fina cortina
está logo acima da cama
Na mesa de estudo,
um mapa, algumas cartas, um pijama
dividem espaço com o amplificador, que está logo abaixo, na decoração
O violão, as bolsas e a solidão
ganham também algum espaço nessa pouca imensidão

Sobre os fios que correm para cima do teto
Um outro punhado de CDs se descolam
Mais uma vez o garoto dorme
Neste quarto terraço, sua origem, seu laço

terça-feira, 2 de setembro de 2008

(In)esperado Sentimento


Na ambigüidade do olhar
com a fusão de simples palavras
Brotou algo inesperado
A negação se desfez
O medo fora combatido

Como será conversar consigo mesmo
Quando a melhor amiga não é a consciência?

As válvulas de escape vencidas
Não mais suprem as necessidades alarmantes
Naquele momento exato
O tempo parou
Estagnou os sentimentos
A Terra orbitou sobre nós
O sol da meia-noite nasceu

Ninguém acreditou naquele paradoxo natural
Até mesmo seu feitor relutou
Perdido em suas palavras
Deixou-se ir entre os alísios tropicais
de epopéias construídas
no imaginário de nossas mentes infantis

Escrevendo poemas para outrem
Procuro traduzir o indecifrável
Tentando por em palavras o que não se entende dos atos
Mais uma vez, aqui, me isolo, no meu quarto
Perguntando-me aonde queremos chegar...

Buscando um desejo obscuro, (im)possível
Imploro para a memória não falhar
Querendo rememorar tudo aquilo, que o aquilo me fez passar

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

One of These Days


Num daqueles dias de trabalho
Deparo-me contra o sol radiante
Penetrando na chuva fraca que respinga na janela
O vento calmo chocando-se contra meu rosto
O céu, nublado, escondendo sua grandeza
Os ecos do além sussurrando frases bonitas
E, cada vez mais, surgem buracos
no caminho que optei percorrer
Farsas sobre farsas construímos um espetáculo teatral
Não espero ninguém se precipitando
Tudo continua a andar
O rio que passa sobre o solo não é o mesmo
A aquarela continua cintilante
Apenas as cores que escolhi não iluminam
One of these days escolhi inverter
todo o meu mundo que me mantinha aprisionado
Novamente alcei vôo
Parti rumo a alguma alvorada

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Aquarela


Com um punhado de tinta
Decidi colorir um pouco a monocromática tela de minha vida
Um pouco de amarelo nas bordas,
de azul no centro,
Jogo um preto aqui
Um verde acolá
Sombreio as partes negras
Pinto de rosa as passagens felizes
Desenho quimeras para os pedaços tristes
Tonifico os momentos mais importantes,
E reservo um pedaço deste quadro para saborear o poder das criações espontâneas,
das invenções quase que meditadas:
para marcar, registrar, não mais esquecer os vestígios presididos pela imaginação

Neste mundo artístico
Incluo todos os sentimentos exacerbados
jogando todas as cores conjuntamente na parte central superior
E, deste modo, metodicamente pintando,
classifico todos os rumos e cicatrizes de minha pequena e irrisória memória
Termino fechando todo esse espetáculo com apenas uma certeza
De que o espetáculo da vida,
ainda que irreversível e único,
pode ser rememorado, recriado, reaproveitado
Por isso eu crio, crio realidades que ainda nem existem
Com pessoas imaginadas
Nos momentos mágicos da vida

E neste teatro
Resta dizer que só há uma exigência:
querer você também pintar a minha, a sua, aquarela escolhendo, a dedo, a cor, o lugar e o desenho de suas telas

domingo, 24 de agosto de 2008

O Último Guerreiro


Arrebata-me com o prazer do sonhar
Carregue-me para a tua morada
Permita-me lançar todos meus desejos
Dê-me sua licença para exterminar a inquietação da expectativa
de cruzar minha visão com a arte do seu corpo
Entre o vai-e-vem
Sufoco
Angústia
Inquietação
Aquela espera, no entanto, é válida
Oh, Meu Deus, como é bom se declarar
Mesmo para quem não me quer escutar
Mesmo para quem apunhala o coração indefeso
Mas para mim não importa o resultado
Sempre continuarei com essa vontade louca de conquistar
De me entregar
De viver
De conhecer
De me deliciar

sábado, 23 de agosto de 2008

Pensamento Vago


Uma vontade expressa, mentira
Aquele encontro marcado, lembra?
Sorrisos voluntários
Mudanças perfeitas
Caminhadas longas
Expectativas fugazes
Resultado nulo
Mais um abraço de complacência
Outro aperto de despedida
Dois caminhos distantes
Linhas do tempo diversas
Experiências separadas
Ajuda mútua inexistente
Brincadeiras maldosas
Sentimentos ignorados
Dúvidas exageradas
Vou me retirar
Já estou correndo
Nunca mais olharei para outros ângulos
Cairei de cabeça no céu
Pegarei um ramo de nuvens para você

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Fugacidade do Desejo


Algo inesperado tirou-me a bonança
Estava tudo estabilizado
, parado, tranqüilo
Chegou você
Antiga estranha, distante, irrelevante

Caiu de pára-quedas pisando sobre minha sombra
impedindo meus movimentos,
entalando meus suspiros,
diluindo alguma droga no meu sangue perdido

Por trás daquela alegria,
do olhar combinado às vontades conhecidas de apenas um coração
Inverti a imagem de meu espelho,
querendo te roubar o reflexo, o amor, a paixão

E cada vez que te mirava,
meu alvo se transformava em algo muito maior do que há pouco se mostrara
Teus toques inocentes, quase criminosos,
me fazem companhia nos momentos de solidão
e em cada pílula de libido ingerida,
te imagino deflagrando-se contra um crime, uma tradição

Sendo eu o teu cúmplice
Não vejo outra alternativa se não a do (des)gosto
Pelo seu corar
Vejo a esperança de conquistá-la
Tão longe, tão perto, tão sagrada, tão profana

Mas por tudo isso e,
por estes momentos quase que perdidos, só desejo uma coisa:
Criar asas e te roubar de tua casa

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Vestimentas Verídicas


Agora acabo de me flagrar, me degladear com uma prazerosa vontade de escrever
Mesmo que seja algo estúpido, insípido, branco, sem sentido, indigno de leitura
Quero o despertar da libido
quando solto os meus escárnios,
quando baforo palavras intrépidas complacentes com palermices

Jamais pensei em te magoar
Também não penso em despojo próprio
A maior tolice é querer o que se pode ignorar com a mais pura sinceridade
Que tal mudar?
Não bastam as leis para nos embutir juízo?
Nada pode paralisar o que nossos olhos denunciam
Trancada por dentro, você apenas me mostra o quão frágil você está

Jazendo nos jardins da saudade,
seu toque, seu sussurro, seus olhos
são provas perfeitas de carisma, de agonia, de desejo
Lembre-se, pequenina, você tem alguém a quem pode decepcionar
Eu defendo os fracos, não os medrosos
Que tal vir para meus braços?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Casa de Vovó, Casa de Vovô


O tempo vai passando
E aqui bem perto
a máquina rosnando
o fruto de seu trabalho contínuo,
parado
Reproduz a ternura de um semblante

Rememorando os bons tempos de meu agrado
Vejo minha avó sentada
Na cozinha
Primorosa é a minha velhinha
Que naquela calmaria, engatilha a linha na agulha
Deflagrando-se em sua costura

Olhando um pouco de lado, vejo meu avô
Sereno,
Calado,
Concentrado na televisão, desperdiça sua atenção

Me volto um pouco mais para parede
Para aquelas fotos de memória
Ali esta minha bisavó,
Recém-morta,
Congregando a família
Unida na desunião

Desisto, porém, de investigar essas lembranças
Tão bonitas de se olhar
E entro no quarto da minha tia
Daquele de alguns dias
A cama em que eu dormia
Perto do ventilador
Ao lado de meu avô
Infelizmente, não voltou

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Num Lugar Distante


Num lugar distante
Império sombrio dos medos obstinados
Todos lutam contra a altitude
No caminho perigoso de estradas tortuosas,
de curvas imaginárias
Com pés calejados
E mãos pesadas da dor cintilante das trevas impregnadas
Retiram flores do bolso
Trocam sementes radiantes
Jogando ao mar os diamantes
Fonte única de felicidade
dos olhos abalados da sofreguidão da miséria

O céu carregado de uma espessa nuvem negra
Ameaça todo trabalho forçosamente trabalhado
de todo aquele ano, lá se vai a colheita
A legião de soldados não cessa de marchar
Morrendo um pouco a cada dia
Vão descosturando a carapaça da mãe terra
a cada passo maquinalmente desperdiçado
E a vida vai passando
Com todo rigor de sofrimento
Naquelas estradas ingratas
Pelo frio das planícies de altitudes elevadas
que nos poucos momentos de sol
queimam seus últimos suspiros matinais

O horizonte não oferece a esperança
Aqueles limites vomitam suas condições
Mergulhados nesta existência
Entregam seus corpos aos negociantes de vida
E estes, pelos trocados da ambição,
Condena a vida a vivência fúnebre de seus interesses
Suas faces orgulhosas
Por muitas vezes impenetráveis
Recusam qualquer esperança de liberdade

A caminhada da vida continua
Neste estranho lugar
De geração a geração
Cavando o espesso buraco que os afunda
Numa terra onde não se espera
Não se vive, não se descansa...

sábado, 28 de junho de 2008

Reencontro Interior



Um encontro marcado
A ânsia de não faltar
Esperei negação
Você estava lá

Conversas das mais diversas
Talvez para dispersar
Olhares muitas vezes trocados
Entre espíritos desvirtuados
Com certeza, vai nos sarar

Queria agora tua mão
Teu peito
Teu coração
Queria até um pouco mais
Quem sabe o pensamento
Teu temor
Teu tormento

Entre o frio das alturas,
queria o teu corpo
O escopo do meu gosto
A libido de nossos rostos

Dos sonhos de fato presentes
São todos quase (des)crentes
Criança da noite,
inverno recente
Toques antes desconhecidos
São conhecidos do passado

Entre corpos que se atraem,
conto essa história fugaz
De alguém que só quer mais alguns minutos
Tão sofridos de se alcançar
Não quero você para meu mundo
Quero apenas sonhar

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Ah, estou cansado...


Ah, estou cansado
Não quero mais nada disso
Cansei de ser um perigo

Não me diga o que restou


Onde foi parar toda construção
de uns poucos momentos atrás?
Não passamos de estranhos
Coisas mortas a se arrastar
Olhares trocados que não se somam
Que não vão mais se multiplicar

Não me diga o que restou
De minha parte, só me chegam lembranças
Fuja para uma toca
Corte o cordão umbilical

Apenas me deixe, comigo
A vontade fugaz, cedeu
Sei agora como você vive
Sei de tudo que me envolveu

Certamente não foi como eu pensava
Talvez nem fosse como você esperava
Mas não importa
Vou dar as costas

Quero me negar,
não vou mais desejar
Você se foi eternamente
Meus olhos não mentem
Meu tato já não mais te sente
Minha cobiça não é patente

Despedidas são sempre amargas
Não vou esconder a minha dor
Aquela que vai, depois volta,
que sempre hesita em se esvair
Só peço que pare e reflita:
você não irá voltar p
ara mim

domingo, 1 de junho de 2008

Vamos brincar?


Nos temos de criança, adorava rodar pião
Brincar de pega-pega, esconde-esconde, garrafão
Nas férias, corria atrás de pipas
Montava as bicicletas que fazíamos manobras
Pegava os patinetes para cair
Queria novamente os momentos de guri
Voltar aos tempos dos patins, das bolas de gude, dos sagüis
Ao do só ter motivos para sorrir

Mas agora tudo acabou
Da última gota, pouca coisa restou
Meus “comandos em ação” foram perdidos
Meus desenhos animados estão falseados
Meu quarto bagunçado, ta todo arrumado

Queria voltar a ser criança
Descobrir todo o óbvio tão fácil assim
Ah, Deus do Céu, porque tirastes isso de mim?
Porque tirastes isso de mim?


Vamos brincar de almofadinhas?

Amanhã como será?


Minha crítica é para ser contestada
Odeio o silêncio forçosamente silenciado de alguns covardes
Queria chegar a ver os que têm tudo a perder se lançarem na incerteza de se verem sem nada
Esses, sim, são dignos de respeito
É triste acompanhar os que vivem em seus permanentes medos
De não ter as chaves para a prisão interna, e quase eterna, dos que se acham livres e felizes
Aprendi que a solidão não é a ausência de pessoas por perto, é sim a ausência de si mesmo
Um verdadeiro sábio age antes de falar, para, depois, falar baseado no que já fez
Existo para marcar alguns momentos de umas poucas pessoas que me rodeiam
Mas existo para o agora

E as coisas que eu tinha para falar teriam que ser enterradas na consciência remota de alguém que desprezei
Porque, então, a demora em se arrepender?
E porque não conversar com seus avós?
Porque perder tempo com o medo que te mata antes de tua hora chegar?

Os frutos das árvores apodrecem
Cabe a nós retirá-los com todo esmero e compaixão
Não os deixe estragar
Recolha-os ainda no pé
Mas caso algum deles caia no chão, por favor, limpe-o, não o deixe em vão

Não deixe a vida apenas passar
Ainda que seja borrada de tristeza e de solidão
Viva para você
Para os sentimentos que te acompanham
Não se abstenha das batalhas
Morra uma vida duelada

domingo, 11 de maio de 2008

Uma Resposta da Ironia


Poemas não são nada comparados aos sentimentos
Sinceramente, o que você esperava para me ver contente?
Todo instante é criado pela vontade que sempre resta
São vestígios de uma carta que do peito se revela
Ao que me parece, o irônico já começou a agir
Conversei de coração aberto
Você é quem se escondeu de mim
Todos os encontros marcados
Não passaram de enganação
Nenhum de fato se fez...

Seu deus existe em vão

Eu costumava temer ao medo que por momentos nos aflige
Mas – agora – compartilho com ele todos os meus limites
Minha vontade não é evaporar
É continuar até ver aonde você vai chegar
Não me venha descriminar as armas que trago comigo
É tudo uma resposta bélica aos mísseis por você erguidos
Sua vontade não se parece nem um pouco manifesta
Venha com tudo para ver se, ao menos, me acalenta
Melindro-me que seu receio vá falar mais alto
Só não se explique dizendo que é meu novo ar irônico e pesado

O pobre escárnio nasce sozinho e é logo marginalizado
Me transformei numa pessoa (in)diferente ao que se expele
Fique atenta, no entanto, sempre existe uma essência
Você é quem sabe a iniciativa
Não sou mais aquele que espera tua partida
Aceito tudo mais fácil
Continuo meio fraco
As portas estão abertas
Basta um pouco de cautela
Só não queira algo igual
Quase tudo em mim é proposital
Uma coisa de fato já aconteceu
Mudei as lentes dos óculos
Meu espaço se escafedeu

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Minha Poesia Não é Literatura


Quando escrevo, não narro fantasias
Inexistem personagens ou malabarismos
O rio que transponho é
um pouco mais largo do que vossas senhorias imaginam
A ficção inexiste em meus sentimentos
Todos são retratos de uma dor profunda
Conto-lhes fio a fio meu pranto eterno que muitos zombam

O subjetivo não é o ilusório
É a
incapacidade de uns poucos desvirtuados
Meu método utilizado é um pouco mais científico
Minha tentativa é empírica
É quantitativa
Meço sílaba por sílaba o que me atanaza o juízo

Nego à semelhança com os acéticos literários
Não escrevo para criar registros
Registro para xingar os déspotas
Não é tudo que me interessa
Só me apego ao que realmente nos desvirtua

Minha poesia não é literatura
É muito mais uma dose de bom senso, rigor e técnica
E não é qualquer vigarista que se mostra
Que me irá fazer calar o que aqui dentro berra

terça-feira, 29 de abril de 2008

O Troco Chegará


Nunca mais escrevi poemas para cantar vitórias
Quando você chegou, me arrastou para um lugar desconhecido
Minhas tristezas me inspiram, como também a você, receio
Quero sair desta agonia
Libertar-me de sua prisão
Quero alguém mais perto
Você se importa de me dar alguns minutos de sua alegria?
Acho que não
Logo a mim, aquele que se dedicou a tal ponto de ser satirizado pelos sentimentos
Não, você não seria capaz, seria?
Peço um pouco mais de seriedade
Mas não estou em condição de pedir
Agora eu exijo
Solidão, saiba, vou me povoar
Cedo ou tarde o troco chegará


sexta-feira, 25 de abril de 2008

É para você mesma: não tenha dúvidas


Baby eu não vim para brincar
Meu jogo de baralho não admite deslizes
Ou você se empenha, ou você desiste
O troféu não será de ninguém
Apenas você está pondo em risco o que poucos têm
Não vou lhe dar mais nenhum conselho
Chega de preliminares
Vamos dar as mãos para as armadilhas do coração
Não sou o coringa de sua seqüência
Tão pouco o carrasco de meu sepultamento
Dê as costas para seu propósito
Seus objetivos são utópicos
Quando mais você tenta
Mais desprezo alimento
O número da sorte transfigurou o medo
Tenha uma boa noite donzela
Droga minha que me desorienta
Não vou mais me afogar
Agora aprendi a nadar
Fui tratado da solidão
Não quero mais te incomodar
Meu embarque não vai retornar

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Passado Presente Passado


Eu não quero mais te conhecer
Suas palavras estão vazias
Onde você foi ancorar?
Deixou a inércia por você
Não vejo mais o que um dia eu vi
Cheguei ao estremo pra te mostrar
Tudo aquilo que eu pensei existir
Você não considerou
Simplesmente apagou o que meu lápis nem riscou
Vou amassar a nossa história
Borrar todos os encontros
Criar um aviãozinho
e fazê-lo decolar
com os vestígios no ar
que sua borracha me deixou
Os singelos olhares trocados
Nunca mais voltarão a acontecer
Não admito rejeição
Arrume seu estojo e não interfira mais em minha redação
Esqueci todos os argumentos
Não quero mais escrever
Na minha folha de papel
Só existirá o que me fizer viver
Rejeito a indiferença
Vou ignorar o seu cinismo
Por causa disso, criei um poema
Para todos os submissos
Talvez eu esteja fazendo isso
somente por você
Mas certamente como um escárnio
Pela vergonha alheia de não querer
estar no seu estado
Não me leve a mal
Somente não quero caminho de volta
Continue com afinco
Não pare pra olhar pra trás
Agora eu passei correndo
Seus olhos irão me deixar
Lá na frente talvez nos encontremos
Mas, agora, deixemos o futuro falar

sábado, 19 de abril de 2008

Fechei o Túmulo


Se eu não posso ter o que quero
Vou esconder o que querem de mim
Não vou mais escutar os que não querem me ouvir
Vou cobiçar o que todos ignoram
Não vou mais te pertencer
Agora vou te enterrar
Fechar o túmulo que um dia você poderia reingressar
A saudade, eu sei, vai se construir
Mas não me peça algum caminho em que você possa vir até mim
Não admito mais visitas
Feche sua mala e admita sua partida

terça-feira, 15 de abril de 2008

Teatro sem Personagens


Preciso viver em uma atmosfera que não exista
Criar meu próprio mundo
Desenhar os personagens de minhas tramas
Bordar as estradas do perigo
Escrever os poemas mais emotivos
Imaginar uma família perfeita
Bolar um roteiro de cinema
Destruir os holofotes da vida
Inventar novos cenários
Quero ser o mais deslocado
Não vou viver como eles querem
Vou te levar para onde me amam
Vamos andar de bicicleta?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Viver: arte de sofrer


Já escrevi muitas bobagens
Daquelas que dá vergonha de ler
Memórias fugazes, que lembravam...
Ah...
Tanta meninice!
Os namoricos de crianças
Meus erros de português, volumosos
A falta de coerência, constante
E o sofrimento pequeno, grande
Na época em que eu não sabia a beleza da vida
Nem mesmo as amarguras
Que olhava para uma garota
E a desejava como a última coisa em minha vida
Queria voltar a escrever os absurdos gramaticais
Retornar a viver na ilusão da morte natural
No tempo em que meu pai era o herói
Meus tios os companheiros
Minhas tias outras mães
Minha mãe uma santa
Meus avós anjos do céu
Hoje o tempo mudou
Pouca coisa continuou
Meu herói foi derrotado
Meus companheiros fuzilados
Minhas mães singularizaram
E meus anjos voaram

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Para Quem Eu Quero Escrever


Não escrevo para os felizes
Tão pouco para os compromissados
Quero um pouco mais de tristeza
Um pouco mais de mau-trato

Se estiverdes ansiando solução
Desculpe-me, meu amigo, não estou são

Peço um público opressor
Sofrido
Magoado
Tudo isso pra dividir uma dor
Afogar o que não sou
Desrespeitar o amor

Meu caro amigo, por favor, não me julgue a agressão
Sou apenas o reflexo da complacência dos cidadãos
No meu espelho só se reproduz determinados sentimentos
Não é o amor ou fidelidade
É rancor e falsidade

O meu rosto com sorriso
E minhas pernas com vontade
Foram trocadas por aversão do dia-a-dia da cidade

Me disperso por um momento
Pelo tempo que não me resta
Qualquer dia nos batemos com a injustiça que nos espera
Talvez você desista pela estrada
Ou ande quase parando nela
Só lhe dou um aviso:
Corra! Se não a morte nos atropela!

domingo, 6 de abril de 2008

Algo Continuou, Mas Algo Também Mudou



Tudo continua o mesmo
Os carros ainda passam nas ruas
As pessoas ainda correm preocupadas
Meus irmãos ainda vão à escola
Todos ainda sorriem com seus bel-prazeres
O inverno ainda é frio
Os governos ainda são corruptos
O shopping ainda é felicidade
O cinema ainda é distração
A morte ainda é ritual
Mas um ponto é mutante
Não continuo o mesmo
Ando deslocado
Não sorrio com a mesma facilidade
Sinto saudade com mais freqüência
Quero mais proximidade
Valorizo mais a vida
Odeio mais a morte
Grito um silêncio constrangedor
Anoto passagens insignificantes
Choro com o canto dos pássaros
Rememoro a infância com qualquer barraca de jujuba
Enxergo meus avós em qualquer idoso
Necessito de mais carisma
Preciso de mais compreensão
Escrevo como quem dorme

Guarde Sua Compaixão Para Outrem


Não quero sua compaixão
Sofrer é algo natural
Logo você, o conformado incondicional,
para quê falar de amor, se um dia poderá existir o ódio?
Nego todos os ombros caridosos
Juntamente com as juras de companheirismo
Nenhum de vocês, ninguém, poderá suprir o que outrora se arrancou
O peito amigo se esfacelou
As mãos dadas se separaram
No anel, rompeu-se uma brecha
E no olhar, uma lágrima
Vou seguir o ciclo da vida
Ser espectador da matéria passageira
Agüentar a dor que me aflige
Mas nunca vou aceitar essa baboseira
Vou injetar morfina nas veias
Sedar todos os meus sentimentos
Quero degolar o tempo que passa
Dizer um foda-se ao criador
Guarde sua compaixão para outrem
Não preciso de seu olhar
Quero me destruir
Vou me descosturar...

sábado, 5 de abril de 2008

Eu Não Aceito Nada Disso


Eu não aceito dizer adeus
Não me venha dizer que é natural
Tudo isso me parece um circo
Acho que alguém está me gozando
Como é possível a partida eterna?
Isso foi um roubo
Um escárnio ao sentimento
Uma corrupção do nascimento
Deveríamos ser eternos
Minha avó, tão cheia de eternidade
Tudo acabou
Virou pó
Voltou pra terra
Na fotografia, há vida
Há sentimento
Há complacência
Sinto seu olhar
Já rezei em demasia
Vai ver que Deus estava cansado,
Vai ver que Deus estava preparando o cenário para a próxima atração
Quem será, agora, o personagem da vez?
Porque você não me leva?
Aproveite meu tarje de palhaço
Daqueles que não precisam de lágrimas desenhadas,
nem de público espectador
Cansei de bancar o conformado
Eu vou dizer não à morte
E esperar até que a morte diga sim para mim

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Gercina Lyra da Silva (parte 2)


Quando minha bisavó se foi, era um dia de sol
Era uma quinta-feira, três de abril de dois mil e oito
Resplandecia luz
Ouviam-se pássaros
Daqui de dentro algo saiu
Foi rompida uma ligação
O ar se esvaiu
Ficamos sem você
Às 15h00min criou-se o vazio
E tudo preenchido, de repente, se destruiu
Foram 30 dias de sofrimento,
30 dias de purificação
Pela noite uma visitação
Uma tentativa de despedida
Eu tremia, suava com frio
Falei, mas com uma voz que não era minha
Pena, não entendi o que dizia
Tive medo
Foi meu primeiro contato
Quando é que você volta?
Quem mais vai me rezar?
Queria ter você aqui
Como é grande essa dor que me desconsola
É ruim a sensação de nunca mais voltar a ver
Perdoe-me, minha bivó, por todos os erros que cometi
Infelizmente essa foi à hora que vi o quão importante você é para mim
Nunca vou te deixar
Você comigo vai sempre estar
Nas minhas lembranças e pensamentos
Nas minhas fotos e aniversários
Nos meus poemas e nas minhas cartas
Você foi uma passagem,
um exemplo para me guiar
Quero ter fé que um dia vou te reencontrar
Mesmo que seja nos meus sonhos
Ou nas gotas de chuva que batem na janela
Mesmo que seja no formato das nuvens
Ou no barulho da latrina
Só quero que me prometa uma coisa
Uma única coisa pra me confortar
Nunca me deixe por completo,
sempre volte pro seu bisneto...

sábado, 29 de março de 2008

Meandros de Um Sentimento


A agonia que hoje me envolve
Não é a mesma daquele dia
Os acontecimentos passaram
Jamais retornarão
Minha disposição por tua espera esta se esgotando
Caindo levemente do coração
Fazendo malabarismos com a mão
no vento forte que a envolve
Pensei que talvez você volte
talvez não para minhas lembranças
talvez não para minhas carências
talvez não para minhas adorações
Quem sabe pra meu porão
Quem sabe pro meus retratos
Mas, digo, não pro coração

Meros Lembretes


Viver é o malabarismo dos eternos aprendizes
A desventura dos aventurados
A dor-de-cabeça dos calculistas
A inspiração dos poetas
Viver é a arte de se expressar
A consciência da conquista
O sentimento do amor e de seu contrapor
Viver é querer
as dificuldades árduas,
as perdas,
as vitórias
Viver é sentir
a tristeza do partir,
a alegria do reencontro
Viver é seguir
quando tudo o mais regredir,
quando o mundo cair
Viver é confiar
no que construímos para nos segurar
no amor que temos para doar
Viver é pensar, desejar, buscar, se esfolar

quarta-feira, 26 de março de 2008

O Contraditório de um Coletivista



Meu compromisso é com a escrita
Não é com os miseráveis
Não é com os rebeldes
Não é com as injustiças
Poupe-me de seus comentários injuriosos
Eu quero a alegria de viver para mim
Com meus problemas
Com minhas necessidades
Com minhas luxurias
Quero esquecer as diferenças sociais
Atirem-me na perdição
Não quero saber quem são vocês
Quero escutar meu próprio coração
Lutar por minhas causas
Não me engajarei numa guerra que não seja minha
Quantos governantes mandam seus filhos a ela?
Quantos passam um dia sem comer pelos soldados do front?
Vou resistir a esses infortúnios
E se eu quiser apenas existir?
O que os padres irão fazer ?
Quantos sabem de mim?
E a Bíblia, e a Suna, e o Corão
irão me redimir?
Chega de baboseiras
Vamos à verdade escondida
Todos nós queremos o melhor para nós mesmos
Cansei de ser coletivista
Saturei dos jornais
Acostumei-me com a violência
Será que agora eu sou uma pessoa melhor?
Estou decidido,
vou apenas continuar
Com essa vida de merda que só nos faz afundar
Meu espírito morre a gotas
De pingo-em-pingo vai me consumindo
Irei decretar feriado
Chega de trabalho
Basta de gasto
Quero meu salário!

terça-feira, 25 de março de 2008

Igualdade Incondicional


Esse formato me irrita a calma
As pessoas me irritam o sonhar
Os homens me irritam ao falar
As mulheres me irritam o prazer
As crianças me irritam a inocência
Os idiotas me irritam a burrice
Os eruditos me irritam a cultura
Os cantores me irritam a voz
Os guitarristas me irritam o som
Os bateristas me irritam o tom
Os livros me aborrecem a idéia
Os códigos me aborrecem as regras
Os sentimentos me aborrecem o amor
O vento me aborrece a pele
As árvores me aborrecem o gozo
O fórum me aborrece a lei
A violência me aborrece a paz
O barulho me aborrece os ouvidos
O som do silêncio me aborrece a atividade
A hipocrisia me aborrece a justiça
A luminosidade me dói os olhos
A escuridão me dói à mente
Os colares me doem o pescoço
Suas palavras me doem a cabeça
Suas opiniões me doem n´alma
Seu estilo me dói à vista
Seu olhar me dói o medo
Sua postura me dói o senso
Seu querer me dói à vergonha
Seu silêncio me dói no peito
Sua angustia me faz feliz
Seu desespero me faz coeso
Seu declínio me faz grandioso
Sua evaporação me faz sólido
Seu escárnio me faz tristeza
Sua destruição me faz construir
Meu auto-engrandecimento te faz um nada
Meus sucessos te fazem derrota
Meus fracassos te fazem feliz
Minha dor te faz alegre
Minha dúvida te faz sábio
Mas minha felicidade me torna limitado
Minha limitação me torna fraco
Minha fraqueza me torna incapaz
Minha incapacidade me torna um inútil
Minha inutilidade me torna você
Você é igual a mim
Todos nós somos um só
A mesma pessoa vã
Com as mesmas lembranças tolas
Não adianta tentar negar
Estamos fadados a fracassar
Se você não acha assim
Muito bem, tornou-se igual a mim

segunda-feira, 17 de março de 2008

Gercina Lyra da Silva (parte 1)


Minha querida bisavó,
É tão triste te ver neste estado
Queria tanto ajudar
Sei que não posso
Queria apenas o conforto de ter aproveitado mais
Quão duro é o tempo
Você sofrendo tanto
Gostaria de te dizer o quanto te amo
Oh Deus, quão importante você é para mim
Sendo que, justamente na hora em que você não pode me escutar, eu teimo em falar
Queria logo o fim
Não por mim,
mas por você
Não sei o que falar
Penso tanto em você
Das vezes em que me rezava
Das queixas de dor
De seus afetos de amor
Dos abraços debilitados
Dos trocados para os confeitos
Das lágrimas de saudades
Não aproveitei quanto devia
Volta para mim
Volta para todos nós
Queria ti ver esperar no portão de entrada
De ouvir você falar meu nome errado
Como dói esse sentimento
Da partida eterna
Da tristeza de enxergar você apenas em minhas lembranças
Não aceito essa situação
Não consigo aceitar
Ninguém explica essa dor
Não há como compreender
Minha querida avó, que seja feito o melhor
Não quero ti ver sofrendo, para manutenção de um luxo meu
Vá, vá para um lugar melhor que esse
Um lugar digno de sua presença
Te amo!
Saiba disso, mesmo que – enquanto tive tempo – não fiz por onde você soubesse o quanto
Aqui estou eu, agora
Não paro de pensar em seu estado, em sua solidão, em seu sofrimento
Não paro de pensar nas asnices que cometi em deixar o tempo passar, apenas passar
Se valer o arrependimento, aqui estou eu
Te amo minha bisavó, minha avó, minha mãe!
Te amo com a força de todo o meu coração
De seu bisneto, Sales!

domingo, 16 de março de 2008

Socio-Computação


Ligue seu coração na amargura do esplendor
Plugue a coesão no seu sistema de valor
Ponha a senha do sucesso na consciência que se findar
Exclua todos os vírus que a malha pode causar
Compartilhe seus sentimentos com o grosso popular
Recorte seus pretensões de esperança familiar
Copie todas as regras que, por ventura, lhe ditar
Arquive os endereços importantes de se usar
Pois, qualquer dia, sua memória poderá vir a falhar
Não esqueça, por fim, de também providenciar
Componentes que sirvam de memória auxiliar
Desligue como o ordena sua vontade de mudar
E espere até o dia em que possamos nos controlar