Um poço de lama. Alguns grãos de desejos. Um oásis de esperança. Um deserto de desespero.

sábado, 28 de junho de 2008

Reencontro Interior



Um encontro marcado
A ânsia de não faltar
Esperei negação
Você estava lá

Conversas das mais diversas
Talvez para dispersar
Olhares muitas vezes trocados
Entre espíritos desvirtuados
Com certeza, vai nos sarar

Queria agora tua mão
Teu peito
Teu coração
Queria até um pouco mais
Quem sabe o pensamento
Teu temor
Teu tormento

Entre o frio das alturas,
queria o teu corpo
O escopo do meu gosto
A libido de nossos rostos

Dos sonhos de fato presentes
São todos quase (des)crentes
Criança da noite,
inverno recente
Toques antes desconhecidos
São conhecidos do passado

Entre corpos que se atraem,
conto essa história fugaz
De alguém que só quer mais alguns minutos
Tão sofridos de se alcançar
Não quero você para meu mundo
Quero apenas sonhar

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Ah, estou cansado...


Ah, estou cansado
Não quero mais nada disso
Cansei de ser um perigo

Não me diga o que restou


Onde foi parar toda construção
de uns poucos momentos atrás?
Não passamos de estranhos
Coisas mortas a se arrastar
Olhares trocados que não se somam
Que não vão mais se multiplicar

Não me diga o que restou
De minha parte, só me chegam lembranças
Fuja para uma toca
Corte o cordão umbilical

Apenas me deixe, comigo
A vontade fugaz, cedeu
Sei agora como você vive
Sei de tudo que me envolveu

Certamente não foi como eu pensava
Talvez nem fosse como você esperava
Mas não importa
Vou dar as costas

Quero me negar,
não vou mais desejar
Você se foi eternamente
Meus olhos não mentem
Meu tato já não mais te sente
Minha cobiça não é patente

Despedidas são sempre amargas
Não vou esconder a minha dor
Aquela que vai, depois volta,
que sempre hesita em se esvair
Só peço que pare e reflita:
você não irá voltar p
ara mim

domingo, 1 de junho de 2008

Vamos brincar?


Nos temos de criança, adorava rodar pião
Brincar de pega-pega, esconde-esconde, garrafão
Nas férias, corria atrás de pipas
Montava as bicicletas que fazíamos manobras
Pegava os patinetes para cair
Queria novamente os momentos de guri
Voltar aos tempos dos patins, das bolas de gude, dos sagüis
Ao do só ter motivos para sorrir

Mas agora tudo acabou
Da última gota, pouca coisa restou
Meus “comandos em ação” foram perdidos
Meus desenhos animados estão falseados
Meu quarto bagunçado, ta todo arrumado

Queria voltar a ser criança
Descobrir todo o óbvio tão fácil assim
Ah, Deus do Céu, porque tirastes isso de mim?
Porque tirastes isso de mim?


Vamos brincar de almofadinhas?

Amanhã como será?


Minha crítica é para ser contestada
Odeio o silêncio forçosamente silenciado de alguns covardes
Queria chegar a ver os que têm tudo a perder se lançarem na incerteza de se verem sem nada
Esses, sim, são dignos de respeito
É triste acompanhar os que vivem em seus permanentes medos
De não ter as chaves para a prisão interna, e quase eterna, dos que se acham livres e felizes
Aprendi que a solidão não é a ausência de pessoas por perto, é sim a ausência de si mesmo
Um verdadeiro sábio age antes de falar, para, depois, falar baseado no que já fez
Existo para marcar alguns momentos de umas poucas pessoas que me rodeiam
Mas existo para o agora

E as coisas que eu tinha para falar teriam que ser enterradas na consciência remota de alguém que desprezei
Porque, então, a demora em se arrepender?
E porque não conversar com seus avós?
Porque perder tempo com o medo que te mata antes de tua hora chegar?

Os frutos das árvores apodrecem
Cabe a nós retirá-los com todo esmero e compaixão
Não os deixe estragar
Recolha-os ainda no pé
Mas caso algum deles caia no chão, por favor, limpe-o, não o deixe em vão

Não deixe a vida apenas passar
Ainda que seja borrada de tristeza e de solidão
Viva para você
Para os sentimentos que te acompanham
Não se abstenha das batalhas
Morra uma vida duelada

domingo, 11 de maio de 2008

Uma Resposta da Ironia


Poemas não são nada comparados aos sentimentos
Sinceramente, o que você esperava para me ver contente?
Todo instante é criado pela vontade que sempre resta
São vestígios de uma carta que do peito se revela
Ao que me parece, o irônico já começou a agir
Conversei de coração aberto
Você é quem se escondeu de mim
Todos os encontros marcados
Não passaram de enganação
Nenhum de fato se fez...

Seu deus existe em vão

Eu costumava temer ao medo que por momentos nos aflige
Mas – agora – compartilho com ele todos os meus limites
Minha vontade não é evaporar
É continuar até ver aonde você vai chegar
Não me venha descriminar as armas que trago comigo
É tudo uma resposta bélica aos mísseis por você erguidos
Sua vontade não se parece nem um pouco manifesta
Venha com tudo para ver se, ao menos, me acalenta
Melindro-me que seu receio vá falar mais alto
Só não se explique dizendo que é meu novo ar irônico e pesado

O pobre escárnio nasce sozinho e é logo marginalizado
Me transformei numa pessoa (in)diferente ao que se expele
Fique atenta, no entanto, sempre existe uma essência
Você é quem sabe a iniciativa
Não sou mais aquele que espera tua partida
Aceito tudo mais fácil
Continuo meio fraco
As portas estão abertas
Basta um pouco de cautela
Só não queira algo igual
Quase tudo em mim é proposital
Uma coisa de fato já aconteceu
Mudei as lentes dos óculos
Meu espaço se escafedeu

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Minha Poesia Não é Literatura


Quando escrevo, não narro fantasias
Inexistem personagens ou malabarismos
O rio que transponho é
um pouco mais largo do que vossas senhorias imaginam
A ficção inexiste em meus sentimentos
Todos são retratos de uma dor profunda
Conto-lhes fio a fio meu pranto eterno que muitos zombam

O subjetivo não é o ilusório
É a
incapacidade de uns poucos desvirtuados
Meu método utilizado é um pouco mais científico
Minha tentativa é empírica
É quantitativa
Meço sílaba por sílaba o que me atanaza o juízo

Nego à semelhança com os acéticos literários
Não escrevo para criar registros
Registro para xingar os déspotas
Não é tudo que me interessa
Só me apego ao que realmente nos desvirtua

Minha poesia não é literatura
É muito mais uma dose de bom senso, rigor e técnica
E não é qualquer vigarista que se mostra
Que me irá fazer calar o que aqui dentro berra

terça-feira, 29 de abril de 2008

O Troco Chegará


Nunca mais escrevi poemas para cantar vitórias
Quando você chegou, me arrastou para um lugar desconhecido
Minhas tristezas me inspiram, como também a você, receio
Quero sair desta agonia
Libertar-me de sua prisão
Quero alguém mais perto
Você se importa de me dar alguns minutos de sua alegria?
Acho que não
Logo a mim, aquele que se dedicou a tal ponto de ser satirizado pelos sentimentos
Não, você não seria capaz, seria?
Peço um pouco mais de seriedade
Mas não estou em condição de pedir
Agora eu exijo
Solidão, saiba, vou me povoar
Cedo ou tarde o troco chegará


sexta-feira, 25 de abril de 2008

É para você mesma: não tenha dúvidas


Baby eu não vim para brincar
Meu jogo de baralho não admite deslizes
Ou você se empenha, ou você desiste
O troféu não será de ninguém
Apenas você está pondo em risco o que poucos têm
Não vou lhe dar mais nenhum conselho
Chega de preliminares
Vamos dar as mãos para as armadilhas do coração
Não sou o coringa de sua seqüência
Tão pouco o carrasco de meu sepultamento
Dê as costas para seu propósito
Seus objetivos são utópicos
Quando mais você tenta
Mais desprezo alimento
O número da sorte transfigurou o medo
Tenha uma boa noite donzela
Droga minha que me desorienta
Não vou mais me afogar
Agora aprendi a nadar
Fui tratado da solidão
Não quero mais te incomodar
Meu embarque não vai retornar

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Passado Presente Passado


Eu não quero mais te conhecer
Suas palavras estão vazias
Onde você foi ancorar?
Deixou a inércia por você
Não vejo mais o que um dia eu vi
Cheguei ao estremo pra te mostrar
Tudo aquilo que eu pensei existir
Você não considerou
Simplesmente apagou o que meu lápis nem riscou
Vou amassar a nossa história
Borrar todos os encontros
Criar um aviãozinho
e fazê-lo decolar
com os vestígios no ar
que sua borracha me deixou
Os singelos olhares trocados
Nunca mais voltarão a acontecer
Não admito rejeição
Arrume seu estojo e não interfira mais em minha redação
Esqueci todos os argumentos
Não quero mais escrever
Na minha folha de papel
Só existirá o que me fizer viver
Rejeito a indiferença
Vou ignorar o seu cinismo
Por causa disso, criei um poema
Para todos os submissos
Talvez eu esteja fazendo isso
somente por você
Mas certamente como um escárnio
Pela vergonha alheia de não querer
estar no seu estado
Não me leve a mal
Somente não quero caminho de volta
Continue com afinco
Não pare pra olhar pra trás
Agora eu passei correndo
Seus olhos irão me deixar
Lá na frente talvez nos encontremos
Mas, agora, deixemos o futuro falar

sábado, 19 de abril de 2008

Fechei o Túmulo


Se eu não posso ter o que quero
Vou esconder o que querem de mim
Não vou mais escutar os que não querem me ouvir
Vou cobiçar o que todos ignoram
Não vou mais te pertencer
Agora vou te enterrar
Fechar o túmulo que um dia você poderia reingressar
A saudade, eu sei, vai se construir
Mas não me peça algum caminho em que você possa vir até mim
Não admito mais visitas
Feche sua mala e admita sua partida

terça-feira, 15 de abril de 2008

Teatro sem Personagens


Preciso viver em uma atmosfera que não exista
Criar meu próprio mundo
Desenhar os personagens de minhas tramas
Bordar as estradas do perigo
Escrever os poemas mais emotivos
Imaginar uma família perfeita
Bolar um roteiro de cinema
Destruir os holofotes da vida
Inventar novos cenários
Quero ser o mais deslocado
Não vou viver como eles querem
Vou te levar para onde me amam
Vamos andar de bicicleta?

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Viver: arte de sofrer


Já escrevi muitas bobagens
Daquelas que dá vergonha de ler
Memórias fugazes, que lembravam...
Ah...
Tanta meninice!
Os namoricos de crianças
Meus erros de português, volumosos
A falta de coerência, constante
E o sofrimento pequeno, grande
Na época em que eu não sabia a beleza da vida
Nem mesmo as amarguras
Que olhava para uma garota
E a desejava como a última coisa em minha vida
Queria voltar a escrever os absurdos gramaticais
Retornar a viver na ilusão da morte natural
No tempo em que meu pai era o herói
Meus tios os companheiros
Minhas tias outras mães
Minha mãe uma santa
Meus avós anjos do céu
Hoje o tempo mudou
Pouca coisa continuou
Meu herói foi derrotado
Meus companheiros fuzilados
Minhas mães singularizaram
E meus anjos voaram

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Para Quem Eu Quero Escrever


Não escrevo para os felizes
Tão pouco para os compromissados
Quero um pouco mais de tristeza
Um pouco mais de mau-trato

Se estiverdes ansiando solução
Desculpe-me, meu amigo, não estou são

Peço um público opressor
Sofrido
Magoado
Tudo isso pra dividir uma dor
Afogar o que não sou
Desrespeitar o amor

Meu caro amigo, por favor, não me julgue a agressão
Sou apenas o reflexo da complacência dos cidadãos
No meu espelho só se reproduz determinados sentimentos
Não é o amor ou fidelidade
É rancor e falsidade

O meu rosto com sorriso
E minhas pernas com vontade
Foram trocadas por aversão do dia-a-dia da cidade

Me disperso por um momento
Pelo tempo que não me resta
Qualquer dia nos batemos com a injustiça que nos espera
Talvez você desista pela estrada
Ou ande quase parando nela
Só lhe dou um aviso:
Corra! Se não a morte nos atropela!

domingo, 6 de abril de 2008

Algo Continuou, Mas Algo Também Mudou



Tudo continua o mesmo
Os carros ainda passam nas ruas
As pessoas ainda correm preocupadas
Meus irmãos ainda vão à escola
Todos ainda sorriem com seus bel-prazeres
O inverno ainda é frio
Os governos ainda são corruptos
O shopping ainda é felicidade
O cinema ainda é distração
A morte ainda é ritual
Mas um ponto é mutante
Não continuo o mesmo
Ando deslocado
Não sorrio com a mesma facilidade
Sinto saudade com mais freqüência
Quero mais proximidade
Valorizo mais a vida
Odeio mais a morte
Grito um silêncio constrangedor
Anoto passagens insignificantes
Choro com o canto dos pássaros
Rememoro a infância com qualquer barraca de jujuba
Enxergo meus avós em qualquer idoso
Necessito de mais carisma
Preciso de mais compreensão
Escrevo como quem dorme

Guarde Sua Compaixão Para Outrem


Não quero sua compaixão
Sofrer é algo natural
Logo você, o conformado incondicional,
para quê falar de amor, se um dia poderá existir o ódio?
Nego todos os ombros caridosos
Juntamente com as juras de companheirismo
Nenhum de vocês, ninguém, poderá suprir o que outrora se arrancou
O peito amigo se esfacelou
As mãos dadas se separaram
No anel, rompeu-se uma brecha
E no olhar, uma lágrima
Vou seguir o ciclo da vida
Ser espectador da matéria passageira
Agüentar a dor que me aflige
Mas nunca vou aceitar essa baboseira
Vou injetar morfina nas veias
Sedar todos os meus sentimentos
Quero degolar o tempo que passa
Dizer um foda-se ao criador
Guarde sua compaixão para outrem
Não preciso de seu olhar
Quero me destruir
Vou me descosturar...

sábado, 5 de abril de 2008

Eu Não Aceito Nada Disso


Eu não aceito dizer adeus
Não me venha dizer que é natural
Tudo isso me parece um circo
Acho que alguém está me gozando
Como é possível a partida eterna?
Isso foi um roubo
Um escárnio ao sentimento
Uma corrupção do nascimento
Deveríamos ser eternos
Minha avó, tão cheia de eternidade
Tudo acabou
Virou pó
Voltou pra terra
Na fotografia, há vida
Há sentimento
Há complacência
Sinto seu olhar
Já rezei em demasia
Vai ver que Deus estava cansado,
Vai ver que Deus estava preparando o cenário para a próxima atração
Quem será, agora, o personagem da vez?
Porque você não me leva?
Aproveite meu tarje de palhaço
Daqueles que não precisam de lágrimas desenhadas,
nem de público espectador
Cansei de bancar o conformado
Eu vou dizer não à morte
E esperar até que a morte diga sim para mim

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Gercina Lyra da Silva (parte 2)


Quando minha bisavó se foi, era um dia de sol
Era uma quinta-feira, três de abril de dois mil e oito
Resplandecia luz
Ouviam-se pássaros
Daqui de dentro algo saiu
Foi rompida uma ligação
O ar se esvaiu
Ficamos sem você
Às 15h00min criou-se o vazio
E tudo preenchido, de repente, se destruiu
Foram 30 dias de sofrimento,
30 dias de purificação
Pela noite uma visitação
Uma tentativa de despedida
Eu tremia, suava com frio
Falei, mas com uma voz que não era minha
Pena, não entendi o que dizia
Tive medo
Foi meu primeiro contato
Quando é que você volta?
Quem mais vai me rezar?
Queria ter você aqui
Como é grande essa dor que me desconsola
É ruim a sensação de nunca mais voltar a ver
Perdoe-me, minha bivó, por todos os erros que cometi
Infelizmente essa foi à hora que vi o quão importante você é para mim
Nunca vou te deixar
Você comigo vai sempre estar
Nas minhas lembranças e pensamentos
Nas minhas fotos e aniversários
Nos meus poemas e nas minhas cartas
Você foi uma passagem,
um exemplo para me guiar
Quero ter fé que um dia vou te reencontrar
Mesmo que seja nos meus sonhos
Ou nas gotas de chuva que batem na janela
Mesmo que seja no formato das nuvens
Ou no barulho da latrina
Só quero que me prometa uma coisa
Uma única coisa pra me confortar
Nunca me deixe por completo,
sempre volte pro seu bisneto...

sábado, 29 de março de 2008

Meandros de Um Sentimento


A agonia que hoje me envolve
Não é a mesma daquele dia
Os acontecimentos passaram
Jamais retornarão
Minha disposição por tua espera esta se esgotando
Caindo levemente do coração
Fazendo malabarismos com a mão
no vento forte que a envolve
Pensei que talvez você volte
talvez não para minhas lembranças
talvez não para minhas carências
talvez não para minhas adorações
Quem sabe pra meu porão
Quem sabe pro meus retratos
Mas, digo, não pro coração

Meros Lembretes


Viver é o malabarismo dos eternos aprendizes
A desventura dos aventurados
A dor-de-cabeça dos calculistas
A inspiração dos poetas
Viver é a arte de se expressar
A consciência da conquista
O sentimento do amor e de seu contrapor
Viver é querer
as dificuldades árduas,
as perdas,
as vitórias
Viver é sentir
a tristeza do partir,
a alegria do reencontro
Viver é seguir
quando tudo o mais regredir,
quando o mundo cair
Viver é confiar
no que construímos para nos segurar
no amor que temos para doar
Viver é pensar, desejar, buscar, se esfolar

quarta-feira, 26 de março de 2008

O Contraditório de um Coletivista



Meu compromisso é com a escrita
Não é com os miseráveis
Não é com os rebeldes
Não é com as injustiças
Poupe-me de seus comentários injuriosos
Eu quero a alegria de viver para mim
Com meus problemas
Com minhas necessidades
Com minhas luxurias
Quero esquecer as diferenças sociais
Atirem-me na perdição
Não quero saber quem são vocês
Quero escutar meu próprio coração
Lutar por minhas causas
Não me engajarei numa guerra que não seja minha
Quantos governantes mandam seus filhos a ela?
Quantos passam um dia sem comer pelos soldados do front?
Vou resistir a esses infortúnios
E se eu quiser apenas existir?
O que os padres irão fazer ?
Quantos sabem de mim?
E a Bíblia, e a Suna, e o Corão
irão me redimir?
Chega de baboseiras
Vamos à verdade escondida
Todos nós queremos o melhor para nós mesmos
Cansei de ser coletivista
Saturei dos jornais
Acostumei-me com a violência
Será que agora eu sou uma pessoa melhor?
Estou decidido,
vou apenas continuar
Com essa vida de merda que só nos faz afundar
Meu espírito morre a gotas
De pingo-em-pingo vai me consumindo
Irei decretar feriado
Chega de trabalho
Basta de gasto
Quero meu salário!

terça-feira, 25 de março de 2008

Igualdade Incondicional


Esse formato me irrita a calma
As pessoas me irritam o sonhar
Os homens me irritam ao falar
As mulheres me irritam o prazer
As crianças me irritam a inocência
Os idiotas me irritam a burrice
Os eruditos me irritam a cultura
Os cantores me irritam a voz
Os guitarristas me irritam o som
Os bateristas me irritam o tom
Os livros me aborrecem a idéia
Os códigos me aborrecem as regras
Os sentimentos me aborrecem o amor
O vento me aborrece a pele
As árvores me aborrecem o gozo
O fórum me aborrece a lei
A violência me aborrece a paz
O barulho me aborrece os ouvidos
O som do silêncio me aborrece a atividade
A hipocrisia me aborrece a justiça
A luminosidade me dói os olhos
A escuridão me dói à mente
Os colares me doem o pescoço
Suas palavras me doem a cabeça
Suas opiniões me doem n´alma
Seu estilo me dói à vista
Seu olhar me dói o medo
Sua postura me dói o senso
Seu querer me dói à vergonha
Seu silêncio me dói no peito
Sua angustia me faz feliz
Seu desespero me faz coeso
Seu declínio me faz grandioso
Sua evaporação me faz sólido
Seu escárnio me faz tristeza
Sua destruição me faz construir
Meu auto-engrandecimento te faz um nada
Meus sucessos te fazem derrota
Meus fracassos te fazem feliz
Minha dor te faz alegre
Minha dúvida te faz sábio
Mas minha felicidade me torna limitado
Minha limitação me torna fraco
Minha fraqueza me torna incapaz
Minha incapacidade me torna um inútil
Minha inutilidade me torna você
Você é igual a mim
Todos nós somos um só
A mesma pessoa vã
Com as mesmas lembranças tolas
Não adianta tentar negar
Estamos fadados a fracassar
Se você não acha assim
Muito bem, tornou-se igual a mim

segunda-feira, 17 de março de 2008

Gercina Lyra da Silva (parte 1)


Minha querida bisavó,
É tão triste te ver neste estado
Queria tanto ajudar
Sei que não posso
Queria apenas o conforto de ter aproveitado mais
Quão duro é o tempo
Você sofrendo tanto
Gostaria de te dizer o quanto te amo
Oh Deus, quão importante você é para mim
Sendo que, justamente na hora em que você não pode me escutar, eu teimo em falar
Queria logo o fim
Não por mim,
mas por você
Não sei o que falar
Penso tanto em você
Das vezes em que me rezava
Das queixas de dor
De seus afetos de amor
Dos abraços debilitados
Dos trocados para os confeitos
Das lágrimas de saudades
Não aproveitei quanto devia
Volta para mim
Volta para todos nós
Queria ti ver esperar no portão de entrada
De ouvir você falar meu nome errado
Como dói esse sentimento
Da partida eterna
Da tristeza de enxergar você apenas em minhas lembranças
Não aceito essa situação
Não consigo aceitar
Ninguém explica essa dor
Não há como compreender
Minha querida avó, que seja feito o melhor
Não quero ti ver sofrendo, para manutenção de um luxo meu
Vá, vá para um lugar melhor que esse
Um lugar digno de sua presença
Te amo!
Saiba disso, mesmo que – enquanto tive tempo – não fiz por onde você soubesse o quanto
Aqui estou eu, agora
Não paro de pensar em seu estado, em sua solidão, em seu sofrimento
Não paro de pensar nas asnices que cometi em deixar o tempo passar, apenas passar
Se valer o arrependimento, aqui estou eu
Te amo minha bisavó, minha avó, minha mãe!
Te amo com a força de todo o meu coração
De seu bisneto, Sales!

domingo, 16 de março de 2008

Socio-Computação


Ligue seu coração na amargura do esplendor
Plugue a coesão no seu sistema de valor
Ponha a senha do sucesso na consciência que se findar
Exclua todos os vírus que a malha pode causar
Compartilhe seus sentimentos com o grosso popular
Recorte seus pretensões de esperança familiar
Copie todas as regras que, por ventura, lhe ditar
Arquive os endereços importantes de se usar
Pois, qualquer dia, sua memória poderá vir a falhar
Não esqueça, por fim, de também providenciar
Componentes que sirvam de memória auxiliar
Desligue como o ordena sua vontade de mudar
E espere até o dia em que possamos nos controlar

quinta-feira, 13 de março de 2008

Que Figura Interessante É Essa a do Poeta


Como o último orgasmo púbere,
a satisfação do poeta está em encontrar parceiros de sofrimento
Sua libido é o despertar da inspiração
Seu ponto final, uma interrogação
O mistério lhe agrada
A desilusão, o ilude
Que figura interessante é essa a do poeta
Muitos o admiram,
poucos o querem ser

Qual é o poeta que nunca amou uma mulher?
Mesmo que seja um amor
daqueles de brincadeirinha
da esquina à padaria
Que em suas infinitas dúvidas,
desperta a sorrateira afirmação de tempos de discórdias

Que figura interessante é essa a do poeta
Que dorme de olhos abertos
E vive de olhos fechados
Eu queria ser um desses poetas
A cantar cantigas de amor
A uma mulher pendente em um arranha-céu
Sem a mínima vontade vã de vigiar minha criação

Como é boa a vida de poeta
De um último orgasmo púbere,
retira o som do velho
recria o tom do novo
renova o já deposto
e inventa uma nova moda

Que figura interessante é essa a do poeta

terça-feira, 11 de março de 2008

O Tempo Levou


Onde estão agora minhas palavras
que um dia foram ditas com tanto ardor e carisma
levando-me a loucura sã de arriscar tudo que tenho
pensando na fugaz alegria vã dos sentimentos
lavrados na ingratidão do reconhecimento?
Devolva cada um dos meus pesares
Com todas suas intensidades,
que foram banhadas no mar de lacrimas dor,
que um dia, por amor, fui capaz de desperdiçar
Quero também todas as juras de afeto
Todos os planos para futuro
Não os quero em prestação,
Prometo, não cobro juros
Quero apenas o que senti
O que um dia passou por mim
Para preencher o meu penar
Que vazio agora está

Genealogia do Poeta


Um poeta não escreve por gozo
Não escreve por vontade
Nem mesmo por caridade
Um poeta não traz o sentimentalismo
inerente aos apaixonados
Não traduz as angustias
Nem revela o desconhecido
Não se preocupa com o que não é
Vive num eterno passado
Um poeta não vive de mentiras
Tão pouco de verdades
Um poeta não é revelação
Não é solução
Não é emoção
Não é carência
Nem desprezo
Não é independência
Ou auto-suficiência
O poeta é um dependente
Um viciado em sofrimento
Um delinqüente
È aquele que escreve por necessidade
Que busca um leitor mais desesperado em conhecer tolices lembradas
Um carente de companhia
È o que deixa escorrer os versos
como o pranto findo de um amor querido
É a aurora nascendo para os homens que dormem
É o álcool acabando na abstinência do bêbado
É o ser no que foi querendo ser o que não é
Um poeta, por fim, não é nada, lembrando, porém, que o nada já é